A IRONIA QUE DESPERTA REMINISCÊNCIAS E SORRISOS

Vitor Geraldi Haase

Vou contar a história do meu envolvimento com “José e seus irmãos”, o qual remonta ao início do meu casamento com a Raquel. Aquela época, aí pelos idos de 1983 a 1987, foi obviamente muito boa. Nós tínhamos uma vida pela frente, um monte de sonhos, uma estratégia reprodutiva qualitativa implementada com esmero.

Isso não significa que não enfrentássemos problemas. O meu problema msaior era com a visão. Antes de fazer os primeiros transplantes de córnea, eu dependia das lentes de contato duras, as quais me causavam dores terríveis. Chegava em casa de noite, tirava as lentes para aliviar os olhos e não conseguia ler. Ficava frustrado.

A Raquel teve a pachorra de ler vários livros para mim. A voz dela é maravilhosa. Ela leu vários livros de Thomas Mann, entre os quais, “Fausto” e “José e seus irmãos”. Foram momentos especiais. Esses livros entraram para a nossa cultura matrimonial, viraram um referencial simbólico pelo qual nos orientamos até hoje. Tamar virou nossa heroína predileta, nossa estrategista reprodutiva.

Com nossos filhos houve momentos muito especiais também. De noite, as crianças se deitavam conosco na cama e a Raquel - a nossa, não a Raquel do Jacó - lia. No início, ficavam todas as crianças na cama. Quando elas dormiam, eu levava cada um para sua cama. Depois de um tempo, Ramiro e Olavo foram crescendo e arrumaram um colchonete, no qual se deitavam no chão.

A voz maviosa da Raquel não ficou associada apenas ao Thomas Mann, ela impregnou também “Harry Potter” e “Tróia: o romance de uma guerra”. Foi muito divertido. A fissura de Harry Potter era tão grande que comprávamos no exterior, antes mesmo que os volumes fossem traduzidos para o português. A Raquel lia traduzindo diretamente do inglês. Certa vez, na Alemanha, Raquel entrou numa fila para comprar a tradução de um dos volumes, que estava sendo lançado. Desta vez, a tradução foi direta do alemão.

A leitura de “Tróia: o romance de uma guerra”, de Cláudio Moreno, foi muito divertida. O livro tem umas partes bem picantes, inadequadas para criancinhas inocentes. Nessas partes, a Raquel dava uma amenizada no conteúdo.

Volto ao José. Àquela época, a tradução disponível era de Agenor Soares de Moura. O Agenor tem uma história bem interessante. Ela era professor de português em Barbacena. Pelo que entendo, nunca saiu de Barbacena. Por volta dos anos 1940 houve um boom de traduções de clássicos para o português. O Érico Veríssimo coordenava uma equipe de tradutores da Editora Globo, que produziu maravilhas. Gente como Mário Quintana, Dr. Herbert Caro etc. E o Agenor, obviamente.

Naquela época, o jornal Diário de Notícias, de Porto Alegre, lançou uma coluna dos leitores no seu suplemento cultural. Os leitores eram convidados a fazer críticas das traduções que estavam sendo lançadas. O Agenor foi um dos caras que mais contribuiu. Contribuiu tanto, que acabou sendo convidado para escrever uma coluna no jornal, da qual resultou o livro “À margem das traduções”.

O Agenor tanto fez que foi contratado pela Editora Globo para traduzir “José e seus irmãos”. A tradução do Agenor é magnífica. Só que é bem difícil. O sabor é arcaizante, o léxico preciosista. A sintaxe é convoluta, bem como no alemão: deixando verbo para o final e encaixando uma oração subordinada na outra. Os períodos se estendem como se fossem parágrafos, muitas vezes d eum página para outra. O clima todo é mítico, veterotestamentário (palavra que aprendi recentemente e que significa: relativo ao Velho Testamento).

(De vez em quando, me pego lendo a Bíblia e verificando que a versão do Thomas Mann é diferente, mais saborosa. O texto da Bíblia é mais enxuto. Thomas Mann recheeou o texto bíblico de psicologia. Certa vez, ele contou uma anedota. Quando sua datilógrafa lhe entregou a primeira versão de um dos manuscritos, ela comentou que “agora”, graças ao Thomas Mann, “era possível saber como as coisas tinham acontecido de verdade”. Na minha cabeça é assim. A versão do Thomas Mann é muito mais divertida, sem desmerecer a Biblia, a qual ele quis homenagear.)

Raquel e eu brincávamos, dizendo que “José e seus irmãos” fora escrito em ritmo de valsa, tanto pela sintaxe quanto pelos Leitmotiven. O estilo é de um casal girando pelos salões da imaginação em ritmo de valsa: “um para lá, outros tantos para cá”. Tanto na sintaxe quanto na semântica. Os tropos e motivos se repetem. O compasso recorrente se reveste de uma ironia fina, que não desencadeia gargalhadas, mas sorrisos. A leitura do Mann pela pena do Agenor não é fácil, mas é muito recompensadora, cognitiva, emocional e espiritualmente.

Essa semana, descobri que Gilda Lopes Encarnação, uma germanista portuguesa, lançou uma tradução de “José e seus irmãos”. A tradução é ótima, muito fiel ao original, mas o léxico é mais acessível e a sintaxe menos convoluta. Estou comparando o Thomas Mann da Gilda com o de Agenor e me divertindo. Sorrio embevecido. Reminiscências afloram do início da vida com a Raquel, da infância dos nossos filhos. Mergulho fundo no poço do passado que, apesar de insondável, tem um efeito magnético e elicia reminiscências e sorrisos.

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